Postagens

31 – Considerações sobre a natureza do preço de imóveis.

Processos de urbanização apresentam natureza econômico-espacial e dinâmicas sociopolíticas (FERNANDES, 2012). Nas aglomerações urbanas, há a presença intensa do mercado, sendo possível associar o termo “Cidade” a centros de produção e consumo nos quais ocorre a circulação de mercadorias (ROLNIK, 1988, p. 26) e a acumulação de capital (HARVEY, 2005). Ações do poder público influenciam a produção, a circulação e o consumo e, em relação ao mercado imobiliário, podem ensejar a distribuição desigual, inequânime, dos ônus e dos bônus da urbanização. Ações da sociedade civil também influenciam a produção, a circulação e o consumo. Corrêa (1989, p. 15) salienta que a propriedade fundiária consiste num importante elemento do processo de acumulação do capital, sendo que a “propriedade da terra é pré-requisito fundamental para a construção civil”. Em relação aos imóveis urbanos, Lira (1997, p. 113) pontua que “a possibilidade de construir constitui a essência econômica da propriedade”. Furtado ...

30 – Distinção entre o poder aquisitivo (ou poder de aquisição de bens), o poder de acumulação de capital e a riqueza pecuniária/patrimonial.

Em vista de leituras das obras literárias de Sen (1992), Harvey (2001), Rocha (2003) e Chang (2013), percebo que são distintos a riqueza de uma pessoa, o poder aquisitivo (ou poder de aquisição de bens) dessa pessoa e o poder de acumulação, por parte dessa pessoa, de capital. O termo “riqueza” é passível de debates. Além da riqueza financeira, pode-se conversar sobre demais riquezas: riqueza de saúde; riqueza de afeto e amor, riqueza espiritual etc. . Em certa ocasião, escutei de um arquiteto-urbanista a seguinte afirmação: “a riqueza ocorre quando você não precisa trabalhar para manter seu padrão de vida”. Observo que essa riqueza depende de circunstâncias pessoais, locais, regionais, culturais. Entendo que o poder aquisitivo (ou poder de aquisição de bens) possui relação com a capacidade financeira de suportar compras e gastos. Em linguajar simplista, “ter muito dinheiro pode significar ter grande poder aquisitivo”. Complemento, porém, que o acesso ao crédito financeiro amplia mo...

29 – Enfrentar a pobreza não é sinônimo de enfrentar os pobres.

O desenvolvimento urbano fica suficientemente efetivo quando, presente em todo o território urbano, é tangível a todas as pessoas que vivem nesse território. Não há desenvolvimento urbano efetivo quando ocorrem a pobreza e a exclusão. Mesmo que a definição do termo “pobreza” seja passível de debates e possa variar conforme recortes territoriais e temporais, a ocorrência da pobreza inviabiliza o reconhecimento da plenitude do desenvolvimento urbano. Ainda que as feições do termo “exclusão” venham a ser distinguidas das exclusividades socialmente aceitas recorrentemente promovidas dentre as dinâmicas econômicas, a efetividade do desenvolvimento urbano fica limitada pela seletividade que desfavorece o acesso ao uso de espaços, bens e serviços públicos, sejam ruas, travessas, parques, praças, áreas verdes, corpos d’água, estabelecimentos de assistência à saúde, equipamentos para práticas esportivas, lazer etc .. O enfrentamento da pobreza não é sinônimo do enfrentamento dos pobres. O enf...

28 – Distinções entre o desenvolvimento urbano e o crescimento urbano.

As palavras “desenvolvimento” e “crescimento” representam faces distintas da evolução de pessoas, seres vivos, comunidades, cidades. A desenvolvimento de um ser humano não se limita ao crescimento do corpo desse ser humano. O aprimoramento de habilidades cognitivas e de habilidades sensoriais exemplifica o desenvolvimento pessoal. Igualmente, são exemplos: aprender idiomas, compreender relações lógicas matemáticas, reproduzir melodias em instrumentos musicais após simplesmente escutá-las. O desenvolvimento de cidades não se confunde com o crescimento das cidades. O êxodo rural havido principalmente durante a segunda metade do século XX retrata o crescimento populacional urbano. A ausência ou a ineficiência da efetiva organização do espaço urbano impossibilita afirmar que houve desenvolvimento urbano compatível com esse crescimento populacional. Houve desenvolvimento urbano em medida distinta do crescimento urbano. Seo (2016, p. 61) observa que a “má distribuição territorial das ativida...

27 – Entre a pobreza e a riqueza: o transporte ativo e o transporte público coletivo.

Há nuances entre a pobreza e a riqueza. Sendo ações distintas, o enfrentamento da pobreza não fica reduzido a estímulos para que haja mais riqueza. Durante práticas profissionais, escutei a seguinte frase sobre gestão financeira: “o importante não é só o quanto você ganha, mas também o quanto você gasta”. Observo que são relevantes ações dedicadas à redução dos custos para suporte aos deslocamentos cotidianos, ou seja, observo que, além do fomento ao aumento da renda de cidadãos, é relevante reduzir o gasto de cidadãos relacionado aos deslocamentos cotidianos. Rocha (2003, p. 155) observa que “existem muitas evidências empíricas de que o nível educacional é o determinante principal da renda”. Chang (2013, p. 246) apresenta considerações distintas, ao sustentar (i) que “existem pouquíssimas evidências que demonstrem que um povo mais instruído acarrete uma maior prosperidade nacional” e (ii) que o conhecimento adquirido em escolas é pouco para o aumento da produtividade. Para esse auto...

26 – Notas sobre a exclusão social.

A expressão “exclusão social” e o termo “pobreza” são passíveis de debates. Cardoso (2007) verifica que não são incomuns vinculações entre o termo “pobreza” e as expressões “exclusão social” e “segregação urbana”, de maneira a serem apresentados como sinônimos. Considera, todavia, a possibilidade de estabelecimento de relações diretas, mas não sinonimizadas, entre esse termo e essas expressões. Rocha (2003), ao estudar a pobreza no Brasil, busca averiguar relações sintomáticas entre a pobreza, a subnutrição, níveis de escolaridade, níveis de emprego e/ou desemprego e a falta de acesso a serviços básicos. Gomide (2003, p. 7) sustenta que “o conceito de exclusão social, (...), estende o conceito de pobreza para além da capacidade aquisitiva de bens e serviços” e, em vista das considerações de Sposati (1998), observa que a exclusão social abrange a “insuficiência de renda, a discriminação social, a segregação espacial, a não equidade e a negação dos direitos sociais”. Propriamente, Sposat...

25 – Breves notas sobre a pobreza e a miséria.

Estudos sobre a pobreza devem ser feitos com reserva, com empatia, criteriosamente. Presumo que a perspectiva de quem estuda a pobreza seja diferente da perspectiva de quem vivencia ou tenha vivenciado a pobreza. Ainda que instruídos de maneira objetiva, esses estudos podem conter parcialidades e subjetividades que limitem aprendizados. Intencional ou despretensiosamente, esses estudos podem fomentar ideologias e tendenciosidades. Ficam pertinentes, assim, pensamentos críticos acerca do que estudiosos expõem e acerca do queremos, mesmo que sem perceber, que seja procedente. Pode ser que haja constatações pessoalmente desconfortáveis, incômodas, mas procedentes. Benevolo (1967, p. 44) sustenta que, ao ser reconhecida como “miséria”, a pobreza “é vista na perspectiva moderna como um mal que pode e deve ser eliminado com os meios a disposição”. Acerca da miséria, Benevolo (1967, p. 44) transcreve Aneurin Bevan, político britânico atuante durante a primeira metade do século XX: “Por mi...