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27 – Entre a pobreza e a riqueza: o transporte ativo e o transporte público coletivo.

Há nuances entre a pobreza e a riqueza. Sendo ações distintas, o enfrentamento da pobreza não fica reduzido a estímulos para que haja mais riqueza. Durante práticas profissionais, escutei a seguinte frase sobre gestão financeira: “o importante não é só o quanto você ganha, mas também o quanto você gasta”. Observo que são relevantes ações dedicadas à redução dos custos para suporte aos deslocamentos cotidianos, ou seja, observo que, além do fomento ao aumento da renda de cidadãos, é relevante reduzir o gasto de cidadãos relacionado aos deslocamentos cotidianos. Rocha (2003, p. 155) observa que “existem muitas evidências empíricas de que o nível educacional é o determinante principal da renda”. Chang (2013, p. 246) apresenta considerações distintas, ao sustentar (i) que “existem pouquíssimas evidências que demonstrem que um povo mais instruído acarrete uma maior prosperidade nacional” e (ii) que o conhecimento adquirido em escolas é pouco para o aumento da produtividade. Para esse auto...

26 – Notas sobre a exclusão social.

A expressão “exclusão social” e o termo “pobreza” são passíveis de debates. Cardoso (2007) verifica que não são incomuns vinculações entre o termo “pobreza” e as expressões “exclusão social” e “segregação urbana”, de maneira a serem apresentados como sinônimos. Considera, todavia, a possibilidade de estabelecimento de relações diretas, mas não sinonimizadas, entre esse termo e essas expressões. Rocha (2003), ao estudar a pobreza no Brasil, busca averiguar relações sintomáticas entre a pobreza, a subnutrição, níveis de escolaridade, níveis de emprego e/ou desemprego e a falta de acesso a serviços básicos. Gomide (2003, p. 7) sustenta que “o conceito de exclusão social, (...), estende o conceito de pobreza para além da capacidade aquisitiva de bens e serviços” e, em vista das considerações de Sposati (1998), observa que a exclusão social abrange a “insuficiência de renda, a discriminação social, a segregação espacial, a não equidade e a negação dos direitos sociais”. Propriamente, Sposat...

25 – Breves notas sobre a pobreza e a miséria.

Estudos sobre a pobreza devem ser feitos com reserva, com empatia, criteriosamente. Presumo que a perspectiva de quem estuda a pobreza seja diferente da perspectiva de quem vivencia ou tenha vivenciado a pobreza. Ainda que instruídos de maneira objetiva, esses estudos podem conter parcialidades e subjetividades que limitem aprendizados. Intencional ou despretensiosamente, esses estudos podem fomentar ideologias e tendenciosidades. Ficam pertinentes, assim, pensamentos críticos acerca do que estudiosos expõem e acerca do queremos, mesmo que sem perceber, que seja procedente. Pode ser que haja constatações pessoalmente desconfortáveis, incômodas, mas procedentes. Benevolo (1967, p. 44) sustenta que, ao ser reconhecida como “miséria”, a pobreza “é vista na perspectiva moderna como um mal que pode e deve ser eliminado com os meios a disposição”. Acerca da miséria, Benevolo (1967, p. 44) transcreve Aneurin Bevan, político britânico atuante durante a primeira metade do século XX: “Por mi...

24 – Exclusão social, pobreza e o transporte público.

Na cidade, não há condições igualitárias de desenvolvimento. O acesso da população aos bens e serviços urbanos ocorre desigualmente em virtude, ao menos, de especificidades geográficas (MENDONÇA, 2002, p. 86-87). O acesso às oportunidades pode seguir rotas diretamente simples ou meandros a serem superados curva após curva. Cada pessoa possui uma rota de oportunidades própria, em certa medida pré-existente, em certa medida construída dia após dia. A exclusão social e a pobreza são influenciadas pelo transporte público (CHURCH, FROST e SULLIVAN, 2000; CARDOSO, 2007; COUTO, 2020). Há outras influências: legislações urbanísticas discriminatórias (MARICATO, 2000, p. 147) e, em atenção às considerações de Rocha (2003), a cor da pele, o gênero, origens étnicas, quantidades de filhos e/ou dependentes, etc .. O transporte público, ainda que não venha a promover vantagens pessoais, pode atenuar desvantagens retratadas por limitações de renda e por localizações geográficas. Percebo que a util...

23 – Considerações sobre a massificação do consumo cultural.

A cultura pode ser comercializada. Feiras de artesanato, festivais gastronômicos, festivais musicais e festas populares são alguns exemplos de situações em que a cultura fica representada por produtos e/ou serviços, ou seja, exemplificam situações em que há consumo cultural. O vulto desse consumo fica amplificado pela elaboração em ampla escala dos elementos pertinentes a esses produtos/serviços. Essa amplificação fica potencializada pela organização racionalizada de linhas de produção e de distribuição desses produtos/serviços. Para Lefebvre (1968, p. 11), o processo de industrialização, mormente desde o início do século XIX, impulsiona a transformação da sociedade, induzindo a configuração de “problemas relativos ao crescimento e à planificação”, a configuração de “questões referentes à cidade e ao desenvolvimento da realidade urbana” e a “crescente importância dos lazeres e das questões relativas à ‘cultura’”. Rolnik (1995, p. 71-72) observa que a indústria perpassa os diversos as...

22 – Notas sobre a habitação urbana.

A habitação pode ser comercializada. Em linguajar amplo, compras e vendas, aluguéis, arrendamentos, usufrutos, comodatos etc. são regimes de relações entre pessoas os quais podem ter como objeto a habitação. Historicamente reconhecida, a industrialização havida durante os séculos XIX e XX ocasionou processos de urbanização que racionalizaram configurações e localizações de habitações em subordinação à organização espacial de cadeias produtivas. Percebo que essa subordinação não abrangeu cuidados suficientemente pertinentes às condições de habitabilidade e salubridade, o que ocasionou ações e reações em diversos domínios e esferas das sociedades. Benevolo (1967, p.43) relata, em relação às observações de Engels acerca de características de ambientes urbanos pré-industriais e acerca da cidade industrial, que “Engels descreve os casos piores e não a média”, sendo “sua recolha de situações-limite justificada na medida em que a opinião pública já não as considera admissíveis, independente...

21 – Das monofuncionalidades da Cidade à habitabilidade arquitetônica dos espaços públicos urbanos.

Elaborado durante a década de 1930, o documento “A Carta de Atenas” discorre sobre características das cidades e, discriminando as funções “habitação”, “lazer”, “trabalho” e “circulação”, enuncia que essas as 3 (três) primeiras são as funções fundamentais a serem articuladas por meio dessa última função, a qual fica espacializada por um sistema de circulação premeditado. Dentre os termos desse documento, que consiste num manifesto desenvolvido no âmbito do IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), reconheceu-se que “à medida milenar, (...), a velocidade do passo humano, somou-se uma medida em plena evolução, a velocidade dos veículos mecânicos”. Primando pelo cumprimento dessas funções elementares, considerou-se, no âmbito desse manifesto, que as ruas devem ser hierarquizadas e distinguidas conforme finalidades próprias, de maneira a ser maximizada a eficiência da circulação de pessoas mediante veículos e minimizados os impactos do trânsito desses veículos em residênc...