22 – Notas sobre a habitação urbana.
A habitação pode ser
comercializada. Em linguajar amplo, compras e vendas, aluguéis, arrendamentos,
usufrutos, comodatos etc. são regimes de relações entre pessoas os quais podem
ter como objeto a habitação. Historicamente reconhecida, a industrialização
havida durante os séculos XIX e XX ocasionou processos de urbanização que
racionalizaram configurações e localizações de habitações em subordinação à
organização espacial de cadeias produtivas. Percebo que essa subordinação não
abrangeu cuidados suficientemente pertinentes às condições de habitabilidade e
salubridade, o que ocasionou ações e reações em diversos domínios e esferas das
sociedades.
Benevolo (1967, p.43) relata,
em relação às observações de Engels acerca de características de ambientes
urbanos pré-industriais e acerca da cidade industrial, que “Engels descreve os
casos piores e não a média”, sendo “sua recolha de situações-limite justificada
na medida em que a opinião pública já não as considera admissíveis,
independentemente de sua difusão estatística”. Choay (1980, p. 53), em nota
explicativa, também identifica trabalhos literários ingleses “relativos à
cidade e ao campo” nos quais, “cada vez, as descrições aparentemente
‘objetivas’ são a expressão de uma ideologia que fecha ao autor certos ângulos
do campo e/ou focaliza em excesso sobre outros”. Essa autora, propriamente,
observa traços ideológicos nas “pesquisas de Engels sobre Manchester (na
Inglaterra) e as cidades industriais da Inglaterra Vitoriana” os quais deram
suporte ao rompimento de Engels “com o mundo pacífico e ‘vegetativo’ da
sociedade pré-industrial e a (sociedade) militar em favor da revolução
comunista” e oportunizaram que fosse abordada “a questão da moradia social, até
então ignorada pelos meios profissionais” (CHOAY, 1980, p. 53-54).
Benevolo (1967, p. 35) expõe
que, durante o século XIX no Reino Unido, “as carências higiênicas
relativamente suportáveis no campo tornam-se insuportáveis na cidade, pela
contiguidade e o número enormíssimo das novas habitações”. A fim de retratar o
adensamento urbano insalubre, esse autor chega a apresentar a reprodução
esquemática de uma “casa superapinhada ainda existente em 1948” em Glascow,
sendo estimados até 09 (nove) residentes num cômodo desprovido de instalação
sanitária. Em seguida, esse autor, Benevolo (1967, p. 40-41), transcreve
observações de Engels acerca de características de habitações populares em
Manchester, na Inglaterra, durante o século XIX. Engels, propriamente, relata a
ocorrência da generalização da construção de cottages operárias
dispostas a fim de haver economia de espaço e maximização da exploração de
aluguéis. Especificamente, Engels expõe:
“(...).
A disposição é então a seguinte: um lado é constituído por cottages de primeira
fila, muito afortunadas por possuírem uma porta traseira e um pequeno pátio, e
pelas quais é pedido o aluguer mais elevado. Por trás do muro dos pátios destas
cottages fica uma estreita ruela, a via secundária (back street), que é
obstruída por construções nas duas extremidades e na qual desemboca uma
estreita viela ou uma passagem coberta. As cottages que dão para esta ruela
secundária pagam um aluguer menor do que as restantes, e em geral são as mais
descuradas. As suas paredes posteriores são comuns com a terceira fila de
cottages, que por sua vez dão para a rua do lado oposto e pagam um aluguer
inferior ao da primeira fila, mas superior ao da segunda”.
Em sequência a essa descrição,
Engels constata diferenças de exposição das cottages à ventilação
natural e à insalubridade da rua secundária.
Dentre o universo literário e
cinematográfico, percebo obras que retratam, mesmo que parcialmente, as
habitações urbanas estudadas por Engels (1845), Benevolo (1967) e Choay (1980).
Cito, ao menos, as obras cinematográficas “A Fantástica Fábrica de Chocolate”
(2005), “Sweeney Todd: o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (2007)” e “Os
Miseráveis” (2012), todas decorrentes de obras literárias.
Observo que o “urbanismo
moderno”, também denominável “urbanística moderna”, surge em reação às
condições indiscriminadamente insalubres difundidas durante a industrialização
havida nos séculos XIX e XX. Para Benevolo (1967, p. 44), o urbanismo moderno
se posiciona como “parte da tentativa (...) para estender a todas as classes os
benefícios potenciais da revolução industrial (...)”. Ocorre que, conforme
pontua Jacobs (1961, p. 244), o desenvolvimento do “planejamento urbano e da
política habitacional modernos” ficou prejudicado pela consideração,
emocionalmente acentuada, de impertinência das “concentrações de pessoas nas
cidades”. Em adição, Cardoso (2007) observa que, não raramente, experiências de
planejamento urbano dedicadas à (re)criação das cidades, ímpeto de modernidade
balizado pela ordenação geométrica, higiene e legalidade, têm ensejado
situações excludentes.
Para Maricato (2000, p.
155-156), “a cidade é, em grande parte, reprodução da força de trabalho”, não
sendo incluído no custo dessa reprodução a mercadoria “habitação”. Fixado pelo
mercado privado formal, esse custo extrapola a tangibilidade financeira de
expressiva quantidade de pessoas regularmente empregadas, pois o salário nunca
foi regulado pelo preço da moradia (ibidem). Segundo observado por essa autora,
Maricato (2000, p. 155-156), vultosos investimentos, no Brasil, oriundos do
Sistema Financeiro de Habitação (SFH) entre 1964 e o final da década de 1980,
além de interromperem a dinâmica da ocupação ilegal de terras urbanas,
aprofundaram “a dualidade entre mercado e exclusão ao contribuir decisivamente
para consolidar o mercado das relações capitalistas restrito a uma parcela da
população”. Já durante a década de 1990, a pouco expressiva oferta de moradias
resultantes das políticas sociais não chegou a impactar o mercado (MARICATO,
2000, p. 157).
Corrêa (1989, p. 15) pontua
que “a ideologia da casa própria, que inclui a terra”, oportunizou a
minimização das contradições entre capital e trabalho. Percebo, ainda assim,
que setorizações funcionalistas de cidades ocasionaram e/ou fomentaram
desigualdades socioespaciais. Coelho et al. (2016) observam que
“programas de financiamento de baixa renda subsidiados pelo governo”, ao
ampliarem “as possibilidades de acesso formal à propriedade da terra”, têm
mantido “o padrão centro-periferia” que segrega e reproduz desigualdades
socioespaciais. O termo “ideologia” corresponde, segundo Villaça (1999, p.
183), ao “conjunto de ideias fundamentais desenvolvidas pela classe dominante
visando facilitar a dominação, ocultando-a”. Observo que variações dessa
correspondência podem acontecer e, por conseguinte, pessoas distintas podem
apresentar entendimentos diferentes acerca do alcance e da caracterização do
que vem a ser representando por esse termo “ideologia”. Villaça (1999, p.
1985), considerando que ideologias se mantêm quando ausente o pensamento
crítico, pontua que ideologias são alvo de “contínuas transformações e
metamorfoses” para que a “hegemonia da classe dominante” seja mantida.
Entendo que o urbanismo
moderno e a arquitetura moderna cuidaram de imaginar contrapontos às habitações
urbanas difundidas sob a ascendência da industrialização havida durante os
séculos XIX e XX. Essa imaginação não é cativa de arquitetos(as)-urbanísticas e
engenheiros civis. Jacobs (1961) dedica um capítulo à subvenção de moradias,
algo pertinente ao enfrentamento de exclusões e de segregações espaciais. Na
obra cinematográfica “Elysium” (2013), a tipologia arquitetônica idealizada em
favor de grupos populacionais socialmente privilegiados consiste em residências
unifamiliares envoltas por espaços abertos, amplos e vegetados. Sem aprofundar
debates acerca da metodologia das pesquisas que embasam romances literários
históricos, observo que, do romance literário “A Grande Espera”, publicado no
Brasil durante, estimo, a década de 1970, consta breve descrição acerca da
caracterização de um assentamento essênio existente durante o século I d.C.
Conforme exposto pela autora, Corina Novelino, “a moradias eram semelhantes e
situavam-se a boa distância umas das outras, formando fileiras laterais de
regular extensão”, de maneira a serem atendidos “princípios básicos de saúde”
(NOVELINO, 1995, p. 81-82). Notadamente, os habitantes se dividam “em número
reduzido em cada morada” em vista de “preceitos de higiene” (ibidem).
Sendo exposto que o interior das residências era similar e que “entrar numa
dessas casas é o mesmo que penetrar em todas” (ibidem), essa autora
pontua que esse interior era simples, mas bem acabado.
A extensão territorial e as
diversidades cultural e geográfica dos assentamentos humanos urbanos
dificilmente permitem soluções urbanísticas e arquitetônicas universais
relativamente à efetivação do acesso a moradias qualitativamente consistentes.
Maricato (2000, p. 159) sustenta que “a escassez de moradias e a segregação
territorial são produtos de um mercado que, entre outras coisas, vende o
cenário como signo de distinção”. Corrêa (1989, p. 26-27) apresenta percepções
em sentido convergente. Entendo que o mercado habitacional privilegia
seletivamente segmentos sociais conforme expectativas de retornos financeiros.
Segmentos populares tendem a ser contemplados por qualidades minimamente
exigidas no âmbito técnico e no âmbito normativo. Segmentos providos de
reservas pecuniárias acentuadas tendem a ser contemplados por qualidades além
do mínimo, qualidades tão distintas que exclusivas, raras e, até mesmo, únicas.
Referências
bibliográficas:
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Nogueira. Lisboa: Presença, 1981. 168 p. Título original em italiano: Le
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público, acessibilidade urbana e desigualdades socioespaciais na Região
Metropolitana de Belo Horizonte. 2007. 232 f. Tese (Doutorado) – Programa
de Pós-Graduação do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas,
Instituto de Geociências, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte,
Minas Gerais, 2007.
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Geraldo Gerson de Souza. São Paulo: Perspectiva, 1985. 334 p. Título original
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COELHO, H. C.; ARAÚJO, D. C.;
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Título original em inglês: The Death em
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