13 – Comentários sobre equívocos relacionados ao desenvolvimento de projetos arquitetônicos.

Ao final da obra literária "Saber ver a Arquitetura", o autor, Bruno Zevi, apresenta resumos de diversas referências bibliográficas que considerou pertinentes. Dentre esses resumos, Zevi (1984, p. 242) dedica um parágrafo à obra literária publicada em 1932 "Real Architecture", de autoria de Thomas Henry Lyon, e reproduz "os erros mais comuns de quem encomenda uma casa e dos próprios arquitetos".

São elencados, assim, 07 (sete) elementos que, ainda durante a publicação da obra literária “Saber ver a Arquitetura” na década de 1980, permaneciam relevantes no âmbito do desenvolvimento de projetos arquitetônicos. Ciente de que esses elementos devem ser estudados em vista da época e do contexto em que a obra literária “Real Architecture” (LYON, 1932) foi redigida, transcrevo esses elementos e apresento, sob uma perspectiva quase 100 anos após 1932, breves comentários:

1.  “a diferença existente entre uma arquitetura de qualidade e um belo desenho pictórico de um edifício”;

Comentário:

Essa diferença permanece relevante no século XXI, ainda que os meios de elaboração de desenhos técnicos e de desenhos artísticos tenham evoluído abismalmente durante o final do século XX e o início do XXI. Aplicações digitais e softwares permitem o desenvolvimento e a experimentação de ideias de maneira realista ou, mesmo, hiper-realista. Ainda assim, a realidade espacial extrapola cristalizações bidimensionais, pois “o papel aceita tudo” e, não raro, a materialização de ideias oportuniza o refinamento, a revisão ou, até, alterações drásticas dessas ideias. Desenhos bonitos não asseguram fluxos funcionais de pessoas e de processos. Não asseguram conforto ambiental, acessibilidade universal, eficiência energética etc.

 

2.  “o problema da personalidade do arquiteto”;

Comentário:

É impraticável afastar mínimos traços de subjetividade autoral. Essa subjetividade não é, em si, perniciosa. A maneira como ela é expressada e sustentada pode ser perniciosa. É compreensível a substituição do termo “personalidade” pelo termo “ego”, de modo a haver a discriminação: “o problema do ego do arquiteto”. Um edifício, ainda que projetado só por uma pessoa, dificilmente é construído somente por essa pessoa. Não raro, demais pessoas enriquecem o desenvolvimento de projetos e/ou a execução das obras referentes a esses projetos. No século XXI, a autoria é indissociável da responsabilidade técnica. Fica pertinente que o ego autoral não desconsidere o senso de responsabilidade técnica. Do contrário, a personalidade de arquitetos e arquitetas poderá prejudicar a qualidade da arquitetura, ao invés de promovê-la.

 

3.  “o equívoco sentimental a respeito do ambientalismo”;

Comentário:

A ação antrópica, inevitavelmente, ocasiona impactos, repercussões, efeitos ambientais. A implantação de instalações edilícias hospitalares pode ocasionar a supressão de vegetação. A conformação de bairros afasta a presença de animais silvestres e altera rotinas e ciclos relacionados a esses animais. O meio ambiente construído não tem de ser plenamente artificial. A relevância de preservação de elementos naturais, pragmaticamente, tem sido relativizada. A supressão de árvores motiva o plantio de quantidades iguais ou maiores. Não são estáticos nem inalteráveis os critérios para a relativização da importância desses elementos naturais. Intervenções físicas outrora aceitas não o são mais ou passam a ser sob ressalvas. Em cada ocasião profissional específica, convém ser coerentemente criterioso ao conciliar relevâncias ambientais e necessidades funcionais.

 

4.  “o romantismo da ‘cor à antiga’ e da hera que encobre os volumes das construções”;

Comentário:

Segundo Zevi (1984, p. 242), Thomas Henry Lyon apresenta “ponto de vista de um admirador do século XVIII inglês, particularmente do georgiano”. A “cor à antiga” e o emprego de hera sobre volumes edilícios, assim, estão inseridos no contexto dessa perspectiva, o qual vem a ser distinto de contextos outros, em que o clima cotidiano é diferente do clima presente na Inglaterra. Diferenças de trajetórias históricas também ficam relevantes. A expressão “romantismo da ‘cor à antiga’” sugere a consideração de referências anteriores e nostálgicas, algo oposto ao que viria a ser novo e inédito. Composições plásticas abrangem conjuntos de elementos. Cores de superfícies e texturas superficiais são exemplos desses elementos. A conciliação de elementos comumente empregados com elementos inéditos demanda experimentações cujos resultados podem ou não ser inovadores e vanguardistas.

 

5.  “o preconceito de que os materiais naturais são os mais bonitos”;

Comentário:

A percepção do que é bonito é passível de estudos e debates. Pessoas distintas podem perceber distintamente a beleza. Ainda que as percepções sejam convergentes e haja concordância de que um material para revestimento de pisos é bonito, algumas pessoas podem considerá-lo muito bonito e outras pouco bonito. Ainda que critérios objetivos venham a ser discriminados para subsídios de comparações, há subjetividades. Além, materiais que não são naturais podem apresentar características artificialmente premeditadas. Variações de tonalidades de cor e variações de texturas superficiais exemplificam essas características e, sob o olhar de alguns, subvertem a afirmação “de que os materiais naturais são os mais bonitos”.

 

6.  “o preconceito de que a produção artesanal é melhor do que a industrial”;

Comentário:

Na Inglaterra, durante a segunda metade do século XIX, houve o movimento Arts and Crafts (em tradução livre, Artes e Ofícios), de caráter estético e social, dedicado à promoção da produção artesanal em oposição à produção mecanizada/racionalizada e em larga escala. Ao reconhecer que é preconceituosa a consideração de que “a produção artesanal é melhor do que a industrial”, não fica afirmado que a produção artesanal é sempre pior nem fica afirmado que a produção industrial é sempre superior e/ou melhor. Esse termo “melhor” é passível de debates, pois possui, não raro, caráter relativo. Dentre os materiais de construção difundidos no século XXI, o concreto usinado pode ser equiparado um produto industrial e o concreto fabricado in loco pode ser equiparado um produto artesanal, ainda que os elementos desse concreto tenham sido produzidos através de processos industrializados. Não raro, o concreto usinado apresenta características e propriedades mais confiáveis que aquelas do concreto fabricado in loco.

 

7.  “a falsa ideia de que a verdadeira arquitetura se fazia quando o arquiteto era também o construtor”.

Comentário:

O conhecimento sobre dinâmicas estruturais, materiais de construção e processos construtivos instrumentaliza o desenvolvimento de projetos arquitetônicos. O repertório de soluções arquitetônicas fica promovido por esse conhecimento, ainda que responsáveis técnicos por essas soluções tenham limitadas vivências em canteiros de obras. A gestão da execução de obras pode enriquecer esse conhecimento. Estudos e pesquisas também. A distinção entre a responsabilidade técnica por projetos arquitetônicos e a responsabilidade técnica pela execução de obras não inviabiliza notoriedades arquitetônicas. Saber construir um edifício é diferente de saber projetar um edifício. A interlocução entre projetistas e construtores se mostra relevante, recomendável, bem-vinda e/ou necessária.

 

Além desses 07 (sete) elementos ora elencados, devem existir outros mais. A prática profissional permite a identificação deles. Estudos, debates, diálogos etc. permitem a elucidação de controvérsias relativas a eles.


Referências bibliográficas:

ZEVI, B.. Saber ver a arquitetura. 6. ed., 1984. Trad. Maria Isabel Gaspar, Gaëtan Martins de Oliveira: Martins Fontes, 2009. 286 p. Título original em italiano: Saper Vedere l'architettura.

Postagens mais visitadas deste blog

45 – Breves considerações sobre as leituras da paisagem.

44 – A ordem visual além da poluição visual.

46 – Calçadas: um limiar entre a arquitetura e o urbanismo.